07/12/2016
Atos em defesa da Lava-Jato e de pacote anticorrupção ocorrem em todo país
Atos foram convocados por grupos que pediram o impeachment de Dilma
POR FERNANDA KRAKOVICS, LETICIA FERNANDES, GABRIELA VALENTE, LUIZA SOUTO, STELLA BORGES E SILVIA AMORIM
Foto – Crédito: Andre Coelho / Agência O Globo
04/12/2016 10:08 / ATUALIZADO 04/12/2016 20:43
RIO e SÃO PAULO — Manifestantes foram às ruas em várias cidades do país neste domingo para atos em defesa da Operação Lava-Jato e do pacote anticorrupção, que, ao ser votado na Câmara, foi desfigurado. Os atos ocorreram em todos os 26 estados e no Distrito Federal. Das dez medidas sugeridas pelo Ministério Público Federal e que contaram com mais de 2 milhões de assinaturas de apoio, salvaram-se integralmente apenas duas. Os parlamentares ainda incluíram no projeto a tipificação do crime de abuso de autoridade para magistrados e integrantes do Ministério Público. Em São Paulo, pelo menos 15 mil pessoas ocuparam a Avenida Paulista.

Os manifestantes estenderam na avenida uma grande faixa verde e amarela com os dizeres “Congresso corrupto”. Dois bonecos gigantes, um do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outro do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ambos vestidos de presidiários, foram inflados. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que virou réu na última quinta-feira no Supremo Tribunal Federal (STF), foi um dos principais alvos dos manifestantes, que pediram a saída dele.

Uma vaia coletiva foi feita para Renan e também para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
À noite, o Palácio do Planalto divulgou nota em que elogia o caráter pacífico das manifestações. Já o senator Roberto Requião (PMDB-RR), relator do polêmico projeto de abuso de autoridade — um dos alvos dos protestos deste domingo — criticou os manifestantens, que classificou de “mentecaptos manipuláveis”.

No Rio, a manifestação ocorreu em Copacabana. Os principais alvos dos manifestantes foram os presidentes da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado. A Polícia Militar não divulgou o número de pessoas que participaram do ato. Maia e Renan divulgaram nota falando sobre as manifestações.

Em Brasília, o juiz Sérgio Moro, responsável pela operação, foi uma das figuras mais retratadas no protesto. O trânsito na Esplanda foi fechado. Segundo Secretaria de Segurança do DF, 1,7 mil agentes foram destacados para o protesto, que terminou por volta de meio-dia e contou com 5 mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar.

Em Curitiba, 10 mil pessoas, segundo a Polícia Militar se reuniram na frente e nas adjacências da sede da Justiça Federal, de onde despacha o juiz Sérgio Moro, para manifestar apoio à Lava Jato e contra as alterações promovidas pela Câmara Federal no projeto das “10 medidas contra a corrupção”. Para os organizadores do ato, o número de participantes chega a 40 mil ao longo do dia. Havia a expectativa de que magistrado ou algum representante do MPF comparecesse ao protesto, mas isso não ocorreu.

Em Belo Horizonte, cerca de 8 mil pessoas participaram do ato, segundo a organização. A Polícia Militar não divulgou o número de pessoas. Em Recife, o evento foi encerrado com participação de 16 mil pessoas segundo os organizadores. A PM não deu estimativa. Foram registrados atos ainda em Porto Alegre, Vitória, Goiânia, Curitiba, Salvador, Manaus, Belém e Maceió.

Em Goiânia, o protesto começou pouco depois das 15h em frente ao prédio da Polícia Federal. O grupo cantou o Hino Nacional e fez uma oração. De acordo com a organização, cerca de 3 mil pessoas participam da manifestação, que foi pacífica. Já a Polícia Militar calcula 1,5 mil participantes.

Em Belém, os manifestantes fizeram uma caminhada pela manhã. Eles vestiam roupas verdes e amarelas e carregavam faixas que pediam o fim da corrupção. A PM não informou a estimativa de participantes. Já a organização calculou 20 mil participantes.

Em Porto Alegre, o ato durou cerca de duas horas e mobilizou cerca de 10 mil pessoas, segundo a organização. Eles também manifestaram apoio à Operação Lava-Jato e reivindicaram a saída do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Os atos foram convocados pelos grupos Vem pra Rua e Movimento Brasil Livre (MBL) — dois dos principais organizadores de protestos que pediram o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O Vem pra Rua anunciou protestos em 232 cidades dos 26 estados e no Distrito Federal.

Na página do evento no Facebook, 135 mil pessoas haviam confirmado presença até a noite deste sábado. O evento já foi compartilhado mais de 1 milhão de vezes. Também foram convocados atos em oito cidades no exterior: Sydney, Springfield, Nova York, Montreal, Londres, Lisboa, Dublin e Cidade do México.

Os deputados incluíram no “pacote anticorrupção” o crime de abuso de autoridade para juízes e procuradores, que podem passar a enfrentar retaliação dos investigados. E retiraram, por exemplo, o crime de enriquecimento ilícito, que ocorre quando a origem dos bens não é justificada pela renda de agentes públicos.

Para os líderes do protesto, o pacote aprovado pelos deputados é um retrocesso. O ato também servirá para pedir a saída do presidente do Senado, que na última quinta-feira virou réu no Supremo Tribunal Federal, e o fim do foro privilegiado, que alcança praticamente todos os políticos.
Não podemos admitir cangaço, diz promotor

O promotor Roberto Livianu, do Movimento do Ministério Público Democrático (MPD), convidado pelo Vem pra Rua para discursar durante o ato deste domingo na Paulista, afirma que o pacote anticorrupção foi mutilado pelos deputados.

— Intactas mesmo ficaram apenas duas das 10 medidas anticorrupção propostas, a da transparência e a criminalização do caixa 2. Todas as demais foram mutiladas, algumas completamente, outras parcialmente. Não podemos mais admitir cangaço e coronelismo. Metralharam tudo, sobrou menos de 20% do teor original. A cena que vimos na quarta-feira, com o país de luto e dormindo, é de cangaço — critica Livianu.

Em nota, o Vem Pra Rua afirma que a evolução da Operação Lava-Jato levou uma parte expressiva da classe política a demonstrar “preocupação indisfarçável com os rumos da investigação e suas consequências. Por isso, políticos tem buscado formas de impedir a evolução dos trabalhos da força-tarefa e a aprovação de leis que possam punir os que cometeram crimes.

A manifestação deste domingo havia sido convocada inicialmente contra a tentativa dos parlamentares de anistiar crimes de caixa dois, mas o presidente da República, Michel Temer; da Câmara e do Senado anunciaram que esta emenda não será aprovada.

(Com informações do G1)
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